O Tempo Passa...
O tempo passa
O vento passa
Passa a vida
Passa o passo
A vida passa
O passo passa
Passa o vento
Passa o tempo
Eu passo
Tu passa
Sem pressa
No compasso
Em compasso
Tu passas
Sem pressa
Eu passo
No passo
Descompassa
A vida
Descalço
Descalço
A vida
No passo
Descompassa
Piso no passo
Compacto
A lida
Que passa
Quem passa
Na lida
Compacta
O piso no passo
O vasto passo
Passa pelo chão
No passo firme
Do coração
No coração
Passa o passo
Firme no vasto
E firme chão
Chão que passo
Sem querer
Passar assim
Tão pássaro
Tão pássaro
Sem querer
Passar assim
Passo no chão
Tudo passa
Queira ou não
Passo a passo
Como nuvem
Queira ou não
Tudo passa
Como nuvem
Passo a passo
O que eu digo
Do passado?
Não sei...
Já passou!
Do passado?
Não sei...
Já passou?
O que eu disse?
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h15
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Reflexão
Ao visitar um dia
o campo-santo,
vendo as tumbas
bem ornamentadas,
lendo cada epitáfio
nas lápides escritas,
refletia assim em
meu último destino.
Li um que me chamou
muito a atenção,
Dizia: “Descobri o rosto
de Deus quando o meu
coração silenciou.”A vida é
como uma vela acesa
que o vento apaga e
tudo fica em silêncio.
Vi imagens de anjos
velando as tumbas,
de Jesus como o bom
pastor, cordeirinhos
e muitas cruzes de formatos
tantos, com flores,
fotos de muitos que já se
foram, de todas as idades.
Verdadeiras obras de artes
para os vivos admirarem,
pois os mortos mesmo,
não sabem coisa nenhuma.
Não vêem mais, não ouvem,
tão pouco dão importância ao
que está ali posto, se bonito ou
feio,se embeleza ou não.
Mas é bom sempre refletir,
em tudo que ali está.
vê, sentir e pensar
que é neste lugar silencioso
e belo, calmo e tranqüilo,
que se aguardará a voz
do arcanjo e o toque da
trombeta de Deus, o Pai.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h13
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Procissão rio a baixo
Na vida às vezes o lembrar,
só refaz no peito régio
o rêgo reles da saudade,
onde a dor reside em sacrilégio.
E eu fico a meditar profundo
na procela da alma em oblação,
o coração hiante e ferido
pela incúria da lembrança louca.
Mas lembro no rio Parnaíba
a procissão em confluência,
descendo rio a baixo a exultar
no encontro final na catedral.
Dia de São Pedro e o foguetório
já no lindo flavo pôr-do-sol,
ao ouvir ficava em frenesi
e corria para a beira do meu rio.
Ali via as lanchas, as canoas,
nos barcos alindados as pessoas,
que no afam de louvar na festa,
nas traiçoeiras águas se lançavam.
Horas após eu ficava a ouvir distante,
lá depois do encontro dos meus rios,
que abraçados, rios Poty e Parnaíba,
assistiam a festa, no bairro Poty Velho.
Oh! Até onde vai o pensamento?
Nas entranhas peripécias de criança.
Quando o tempo não fazia diferença,
se era manhã, tarde ou noite da vida.
Hoje, muito distante da minha terra,
e mais ainda do tempo... Já não ouço mais.
Mas prefiro a loucura da lembrança boa,
do que a amargura cruel da saudade má.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h07
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Fonte de Luz
Oh! Alma inerte
Admirar-te quero,
No íntimo, o peito,
A vida toda espera.
Fagulha de luz
De todas as estrelas,
Fonte de amor
De todas as paixões.
Na busca louca
Da loucura intensa,
Mergulho em ti
Para poder rever-me.
Grito! O mundo é surdo!
No ar a voz a tremular,
O vento urge bravo
No pestanejar da noite.
O olhar se perde fácil,
E num piscar se vai
O pensamento ao léu,
Cortando véu e céu...
A iluminar se detém
A própria fonte de luz,
Ofuscada com o brilho
Que vem dos olhos dela.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h06
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Conto
A Ponte Metálica
* Camilo Martins
Quando eu nasci ela já estava lá, há vinte e cinco anos! Era Teresina, no Piauí, de um lado e do outro, Timon, no Maranhão. Fronteiras rivais. Os teresinenses chamavam os timonenses de pilãozeiros e a briga estava feita. E a ponte lá, só testemunhando tudo, passa boi, passa gente, passa carros, passa carroças, passa bicicletas, passa o trem, é um vai e vem infernal. A ponte sobre o rio Parnaíba. Rio sereno, na época de seca, é claro! Seiscentos e quarenta e seis metros de largura. Pequeno até, em relação a tantos outros da região norte. Ponte velha, é o apelido. Toda em metal, inaugurada em mil novecentos e trinta e nove, no governo do presidente Getúlio Vargas.
Quantas vezes parei para admirar aquela estrutura, para mim, criança, monumental, enorme, gigantesca! Aquelas pilastras indo para o fundo do rio... Eu ficava pensando, como é que a água não carrega essa ponte? Que coisa fantástica! Eu queria um dia subir em uma daquelas pilastras, mas nunca consegui, apenas uma vez toquei nela, passeando de canoa, era muito alta!
Eu morava a poucas quadras dela, próximo ao iate clube e podia ouvir todo o barulho das pranchas de tábuas com que era feito o piso. Num espaço estreito passavam os carros, bicicletas e pessoas. Quando o trem ia passar, apitava de longe e tudo parava, era a máquina dominadora! Só o trem passava. Todos paravam. Patrac,trac! Patrac,trac! Patrac,trac! Um barulho ensurdecedor. Pessoas gritavam e eu imaginava: será que alguém caiu no rio? Coisa de criança. Só fantasia.
Quando eu ia para a igreja em Timon, ficava com muito medo, havia buracos enormes, para mim, quase intransponíveis e era preciso mamãe segurar em minha mão. Por vezes papai mandava eu ir comprar carne de boi em Timon, sei lá porque, se era mais barata ou não tinha fiscalização e vendiam a chamada “carne da moita”. Então eu tinha que atravessar a ponte velha cheia de buracos no tablado. Papai dizia: não olhe para baixo, você pode ficar tonto e cair lá embaixo! Daí, não dava outra, olhava lá para baixo, a água descendo e muitas vezes quase que caí mesmo. Quando lembro, até hoje me dá arrepios. Depois modernizaram, fizeram o piso de cimento e asfalto e as passarelas de ferro do lado externo da ponte e grandes grades de proteção... Assim é fácil não ter medo!!
Era lá na velha ponte também que eu pulava no rio e descia rio abaixo numa câmara de ar de caminhão, nadava lá para o meio, na correnteza e depois nadava de volta para chegar no caís detrás do iate clube de Teresina. Era meu lazer favorito. Claro, muito perigoso também. Presenciei muitos acidentes, com lanchas, canoas e pessoas embriagadas que iam para o rio tomar banho e terminavam por se afogar. Perdi muitos amigos para as águas do rio Parnaíba.
Lá de cima da ponte eu via as duas cidades, Teresina e Timon. Olhando para onde o rio descia, via muitos coqueiros, na margem esquerda, e na margem direita, mais cidade e minha casa, e lá longe, onde a vista quase não alcançava mais, a curva do rio num encontro majestoso do rio Parnaíba com o rio Poty. Ah, nem posso ficar lembrando muito... Me corre água dos olhos! Que tempo!!!
Na velha ponte também, lembro, que o vendedor de quebra-queixo ficava de cócoras bem no meio dos trilhos com seu tabuleiro. Um dia, por descuido, não percebeu, cochilou, sei lá, coitado! E o trem passou por cima dele. Encontrou-se com a morte e cessaram as suas oportunidades.
Ah! Velha ponte, ponte velha! Naquela ponte eu ia, quando estava me sentindo só, triste, desiludido. Papai tinha uma bicicleta antiga, uma Philips, uma das primeiras que chegou ao Brasil, eu e meu irmão demos conta dela... Eu pegava a bicicleta de papai e ia lá para a ponte velha, para ver o pôr do sol. Por horas eu ficava lá, até escurecer bem. Ah! Aquele pôr do sol, visto da ponte velha, o reflexo nas águas do rio e o sol morrendo lá longe por trás dos babaçuais eu nunca vou esquecer! E os pensamentos que me ocorriam, também não.
Na ponte velha eu levava os meus amores, meus temores... e, minha solidão desaparecia. Hoje, quando eu vejo a ponte metálica, que tem o nome de ponte João Luis Ferreira e que foi a primeira ligação entre Piauí e Maranhão, recordo com muito carinho e respeito das lições que tirei da ponte velha em muitos aspectos da vida: cuidado, atenção, segurança, confiança, temor, romantismo, prazer de viver... Claro, claro, claro, muito mais e mais. Tudo ainda está lá, menos aquele tempo, que se foi há tempos...E eu...
* Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira-SP – É presidente da Academia Nogueirense de Letras.
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h52
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Conto
O melhor presente de natal de mamãe
* Camilo Martins
O Natal sempre é uma oportunidade para grandes acontecimentos, grandes eventos, programas, peças teatrais, enfim, e até uma média para alguns, distribuindo presentes, se fazerem passar por bonzinhos, quando na verdade a intenção é outra completamente diferente, estão interessados em, posteriormente, colher dividendos.
Assim, era Natal e minha mãe foi convidada para fazer parte em uma grande festa que aconteceria no estádio de futebol, Albertão, em Teresina, e que um grande empresário, homem “muito bom” estaria descendo no campo, de helicóptero, vestido de papai Noel e distribuiria milhares de presentes, para todos que quisessem e fossem até lá, na grande festa em benefício das crianças pobres...
Nós fomos até lá, afinal de contas, era algo diferente, nem sempre tinha alguém tão “bom” fazendo um gesto generoso daqueles no Natal! E nós éramos pobres, nem sempre os pais tinham dinheiro para comprar presentes de Natal para nós.
Quando chegamos lá, eu fiquei deslumbrado! Era algo fantástico! Eu nunca havia entrado num estádio e lembro-me que meus primos se entreolharam encafifados com toda aquela grandeza e beleza! Nós ficamos na arquibancada enquanto mamãe se dirigiu até os vestiários onde de lá sairia pelo túnel já dentro do campo vestida de anjo para encenar, com tantas outras pessoas, a peça que fazia parte do espetáculo, onde, depois, Papai Noel apareceria, descendo do helicóptero e não do tradicional trenó puxado por suas renas...( fiquei decepcionado ).
Eu queria ficar perto da minha mãe e por isso fugi, de onde estávamos sendo cuidados por minha irmã mais velha, Mariluce e escalei escadas e muretas, passei por cima de pilhas de tijolos e pedaços de ferros e mais muretas até que finalmente consegui chegar bem do lado do túnel por onde mamãe sairia e ali fiquei... Fiquei... Até que todos os participantes da peça saíram, mas eu não reconheci mamãe e percebi que além de estar num lugar que não devia eu estava perdido, já que era uma multidão e eu não sabia mais onde meus irmãos e primos estavam e nem eles sabiam onde eu estava ou o que estava fazendo naquele momento!
O programa terminou todos começaram a sair e eu comecei a chorar, desesperado, sem presente, sem entender nada, pois nem pude prestar atenção no que foi encenado, porque estava em pânico, pensei por um momento que nunca mais iria ver meus irmãos, pai, mãe, primos e amigos e as lágrimas nos olhos não me deixavam enxergar direito.
De repente senti uma grande mão pegar à minha mão, olhei e vi o Papai Noel, com sua longa barba me olhar, sentir o meu drama, meu choro e me perguntar:
- O que aconteceu garoto? Porque você está chorando? Não ganhou presente?
- Eu desobedeci minha mãe e saí do lugar que eu estava...
- E agora? Perguntou ele – você está perdido?
- Sim! - Respondi – e perguntei – O senhor veio do céu?
- De certa forma sim – disse ele – sabe eu desci naquele aparelho, chamado de helicóptero, distribui os presentes e agora o programa terminou, estou indo embora!
- O senhor pode me ajudar? Indaguei – chorando e soluçando mais ainda
- Claro! - Foi a resposta – venha comigo.
E ele, segurando na minha mão e eu segurando mais forte ainda na dele, tinha medo de soltar e me perder de novo, me levou até à saída, por um atalho, e ficamos esperando todos saírem e entre eles, certamente, sairiam também os meus irmãos e primos e minha mãe, é claro.
Minha irmã Mariluce com meus irmãos chegaram e eu agradeci ao Papai Noel, que até hoje não sei quer era, talvez fosse o meu anjo da guarda, e me juntei à eles; Mas mamãe não estava, pois quando soube que eu havia sumido, estava desesperada no meio da multidão tentando me encontrar, depois de muito tempo, quando voltou ao local de encontro combinado e que me viu lá, me abraçou forte, chorou, me beijou... e pediu, pelo amor de Jesus Cristo, para que eu nunca mais fizesse isso e me disse baixinho que eu era o melhor presente de Natal dela e que nunca queria me perder... Estas palavras de mamãe me deixaram ainda mais emocionado e até hoje não posso lembrar daquele Natal sem que grossas lágrimas me corram pela face! Muito me conforta saber que eu sou o melhor presente de Natal de Minha Mãe e isso não tem presente nenhum no mundo inteiro que possa substituir.
* Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira – SP. É presidente da Academia Nogueirense de Letras - ANL
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h45
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Conto
O Ladrão com tosse
* Camilo Martins
Foi lá na cidadezinha de Agricolândia que aconteceu. Tinha uma velhinha rica e muito bondosa. Ajudava a quem batesse em sua porta. Ajudava os doentes e era famosa em preparar chás para que as pessoas ficassem curadas de suas doenças. Fazia tudo isso e com muito carinho e amor no coração. Sem distinção de raça, cor ou religião.
Uma noite foi surpreendida com a presença de um estranho no interior de sua casa. Na verdade ouviu o cãozinho latir, mas, pensou que se tratava apenas de algum gatinho que por ali passava e o cachorrinho havia brincado com ele e dado o alerta. Mas, que nada, em pouco tempo ficou incomodada com alguém tossindo muito. Tossia, parava, tossia, parava. D.Amélia resolveu levantar-se e ver se era alguém na porta que estava precisando de ajuda. Mas, quem, àquela hora da noite? Calçou a sandália e seguiu em direção à porta e qual não foi a sua surpresa ao se deparar com um sujeito alto, forte de semblante fechado com uma arma na mão. Mal conseguindo falar e se acabando de tanto tossir, anunciou o assalto. Era um bandido perigoso nunca visto por aquelas redondezas. D.Amélia com voz mansa e bem tranqüila disse que ele poderia levar o que quisesse e que ficasse calmo! Imagine, ela era a vítima e pediu para que o bandido é que ficasse calmo! Onde já se viu?! Mas, enfim. O homem tremia que só vara verde. D.Amélia se atreveu a perguntar se ele queria um chá para acalmar também aquela tosse. Pediu para que ele sentasse enquanto ela iria preparar o chá. Notou que ele estava também se queimando de febre e viu a necessidade de realmente além do chá oferecer um remédio para a febre. O homem aceitou, mas, com relutância, pois era um homem muito mau. Enquanto D.Amélia preparava o remédio o ladrão tossindo muito, tremendo e com febre, vasculhou toda a casa em busca de dinheiro, jóias e objetos que pretendia roubar. Vez por outra vinha até a cozinha e ameaçava a bondosa velhinha. Arma em punho, cara de poucos amigos e tossindo disse, quase sem conseguir falar que ela não tentasse nada senão... Ele a mataria. Pobre D.Amélia!
Quando D.Amélia terminou adoçou bem o chá e o chamou. Ele veio prontamente, tomou rapidamente o comprimido para a febre, o chá e sem agradecer foi para a sala. Decidiu que deitaria um pouco no sofá e depois continuaria a ação do roubo. Assim fez... Mas...
Depois que D.Amélia lavou a xícara, pois não tinha o costume de deixar nada sujo em cima da pia para o outro dia, foi para a sala e para seu espanto o ladrão havia apagado literalmente. Dormia um sono tão profundo que a arma caiu de sua mão e ele suava muito... Ela não ousou acorda-lo. Ele poderia assustar-se e algo terrível poderia acontecer! Certamente era imprevisível o que poderia ocorrer e D.Amélia não queria arriscar.
No entanto... Lei é lei. O homem estava errado. O mandamento diz não furtarás. Ele estava quebrando um mandamento e infringindo a lei, então... D.Amélia pegou o telefone e ligou para a polícia que em poucos minutos estava na sua porta. A boa velhinha pediu para que não o acordassem e que poderiam levá-lo mesmo dormindo no sofá e que fizessem o interrogatório só no outro dia, pois o coitado estava muito mal. Ela foi atendida. Levaram o ladrão com tosse para o xadrez, com sofá e tudo, ele dormia tão tranqüilamente... Vestiram-no com um bonito pijama listrado e o deixaram dormir à vontade.
No outro dia... Já umas tantas horas da manhã o ladrão acorda espantado. O que está acontecendo? Onde estou? Que roupa é essa? Será que estou tendo um pesadelo? Perguntou para si mesmo. Com tantos gritos veio o guarda. O que você quer? Perguntou o homem da lei. Como assim o que eu quero? Quero saber... De repente, caiu em si e lembrou-se de tudo! Deixa pra lá seu guarda! Ah, bom! Disse o guarda – fique sossegado, você está em casa! Repouse e cure essa febre, essa tosse e depois conversamos...
E assim a D.Amélia fez uma boa ação seguida de uma correção. Dura, mas necessária.
* Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira – SP. É presidente da Academia Nogueirense de Letras - ANL
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h38
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Conto
Atolados na lama
* Camilo Martins
Era mês de julho. O dia estava nublado. O Josias e o Marcos, dois irmãos, foram com a mãe até o mercado municipal onde todo o dia realiza-se uma feira livre. Foram pela Rua João Cabral e depois alcançaram a Avenida Maranhão por onde seguiram até o mercado velho, como era conhecida a feira. A avenida maranhão margeia o rio Parnaíba, rio que divide o Piauí do Maranhão é o segundo maior rio do nordeste brasileiro. Há uma ponte metálica ligando a cidade de Teresina à cidade de Timon, por onde antigamente passava o trem da rede ferroviária federal. Quando passaram a ponte olharam a margem do rio e viram uma areia, bonita e fina. Pensaram e combinaram que quando retornassem do mercado, onde a mãe os deixaria e seguiria para o trabalho, daí eles teriam que retornar sozinhos para casa, voltariam pela beira do rio, era até mais perto para casa... A mãe, ouvindo a combinação já foi logo interferindo e com autoridade desautorizando o Josias e o Marcos a voltarem pela beira do rio. O motivo era obvio. Havia chovido muito e o rio tinha enchido um pouco e depois já um pouco mais seco tinha deixado uma camada fina de areia na margem, mas só por cima, embaixo era pura lama.
Os dois meninos tinham ganhado um par de tênis, do tipo conga, quem não se lembra da bonita conga? Eram azuis, lindas! Inclusive estavam estreando as mesmas.
Mas, ao retornarem das compras e voltarem para casa seguiram o plano combinado e foram pela beira do rio. No inicio, algumas pedras, tudo bem! Mas não demorou muito e as coisas começaram a ficar muito dificies. A lama era terrível! E os dois foram atolando até a canela e não demorou, até o joelho. As compras na cesta caíram na lama. Numa passada o Josias perdeu a conga e já começou a chorar e se desesperar. O Marcos estava consciente de sua responsabilidade, já que era o mais velho, foi logo tratando de enfiar a mão e braço e tudo dentro dos buracos das pisadas para encontrar a conga do Josias, menos mal que achou!
Não conseguiram andar muito, até que avistados por um rapaz que estava à cima deles, numa barreira que perguntando o que eles faziam ali naquela situação, deu a mão e ajudou-os a subir e sair daquela angústia e pesadelo.
Assim foram para casa, mas, sabendo que certamente a mãe descobriria e o castigo viria. Eles até que tentaram limpar as congas novas, lavaram e esfregaram muito, com sabão e escova, mas ficaram encardidas do barro vermelho da beira do rio. Lavaram a carne da cesta, as verduras e tudo mais, mas os vestígios ficaram e não foi difícil a mãe perceber que eles haviam desobedecido a sua ordem e voltado para casa pela beira do rio. Os dois levaram um bom corretivo e ficaram de castigo, sem sair para brincar com os amigos por um bom tempo. E a lição ficou: a desobediência não leva a lugar algum, desobediência em qualquer de seus aspectos ou nível, pelo contrário, faz o desobediente atolar na lama cada vez mais. Isso sem contar as perdas, além de moral, material. No caso dos Josias e do Marcos, as lindas congas que tinham ganhado de presente, novinhas, há pouco tempo!
*Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira – SP. É presidente da Academia Nogueirense de Letras - ANL
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h34
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Conto
No dia do meu aniversário
* Camilo Martins
As pessoas geralmente gostam do dia do aniversário. Mais um ano de vida, apesar de está ficando mais velhas, ao invés de ficarem tristes por isso, ficam felizes! Isso não tem explicação. Inclusive, varia muito de pessoa para pessoa. Particularmente eu fico contente, mais para agradecido por mais um ano vivo e ao mesmo tempo preocupado, pois cada ano que passa as coisas vão ficando mais complicadas, há de se ter mais cuidado em todos os aspectos da vida, principalmente quando se vira a curva da metade da vida. Alguns louvam a experiência, isso é válido, mas...
Quero contar de um fato que me marcou este ano e, marcará por toda a minha vida. No dia seis de Julho de sessenta e quatro eu estava nascendo, de maneira que sempre essa data é especial, eu costumo dizer que é o dia de São Camilo e feriado internacional, claro, pura brincadeira! Gosto de ficar só, refletir um pouco, fazer uma introspecção, uma análise de como foi o ano que passou e até sonhar um pouco em como será o ano que virá, se é que o terei. Geralmente quero ficar em casa, às vezes, quando a condição financeira permite, um almoço fora com a família vai bem, mas, no mais, nada de presentes ou festas.
Este ano havia preparado apenas um almoço especial com a família em casa mesmo. Eu casei no dia do meu aniversário de maneira que a festa é dupla, comemoro o meu nascimento ao mesmo tempo em que celebramos, eu e minha esposa, a nossa feliz união, que, aliás, este ano já são vinte e um anos.
Ao acordar naquela manhã tudo parecia ir muito bem, mas às oito horas o telefone tocou, atendi, era meu irmão mais velho, Gregório Martins, que mora em Brasília, calmo e sereno, preocupado comigo e em como falaria... Ele me disse que estava viajando naquela hora para Teresina, a capital do Piauí, pois papai havia falecido. Por um momento fiquei em silêncio, mudo até, parecia que toda a minha vida com papai estava se passando diante de mim, inclusive a promessa que eu tinha feito à ele de que iria vê-lo em breve, esse breve já havia se passado três anos e meio, ele sabia que eu não iria cumpri-la. Meu irmão, também emocionado, tentou me consolar dizendo que papai já estava com oitenta anos, cego há mais de dez, doentinho coitado, descansou... Eu quis concordar, mas não consegui. Por fim disse que ele fosse e me representasse, porque eu não teria condição de viajar para lá e ver papai pela última vez, que abraçasse a todos e dissesse mesmo o quanto eu sentia e sentiria muito a falta de papai. Ele havia sido muito presente na minha vida.
Para mim foi uma grande perda, papai sempre foi meu amigo e me ensinou muito com seus erros e acertos, os erros a gente perdoa e os acertos a gente copia e passa adiante. Quero guardar na memória os momentos bons, alegres, e a imagem viva de papai, penso que assim é bem melhor lembrar e se fosse para contar, eu teria muito que contar do meu velho e já saudoso amigo José de Sousa Martins, o meu pai.
Eu nunca pensei na vida que um dia teria um presente de aniversário assim tão tocante e triste e o que é pior, uma lembrança que terei pelo resto da existência sempre que chegar o dia seis de Julho. E pensar... Como é a vida! Papai morreu no mesmo dia em que eu, a quarenta e dois anos atrás, nasci.
* Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira – SP. È presidente da Academia Nogueirense de Letras - ANL
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h30
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Noutros tempos... Veio a luz
À luz da vela,
Aquela vela de
cêra,
No
Canto da mesa
Lânguida luz
Que alumiava
Somente
O meu
Pensamento...
Depois à luz
Da linda
Lamparina
Pavio
De algodão
Bem dobrado!
Minha vó
Mesmo
Fazia...
Tampa
De garrafa
Achatada.
Com sua
Luz mais
Forte
A iluminar
Minhas
Travessuras.
Nas noites
Escuras
Mas bem
Foguentas
E espoletadas
De menino!
Veio mais tarde
Um lampião
A querosene
Uma chama
Bem diferente!
Se podia
Até controlar
Então eu
Ficava
A brincar.
Aumentava
Baixava
Para com
Isso menino!
Vovó gritava!
Corria pro
Terreiro
Sem luz...
No brilho
Só da lua.
E das
Estrelas...
Lindas!
Magníficas,
Perfeitas!
Poeta Camilo Martins
Aqui, hoje, 09.08.07
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h26
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Noutros tempos... Veio a luz
Iluminavam
Meu
Futuro,
Minha alma,
Meu ser!
Oh, por
Minha falta
De sorte...
Veio aquela...
Luz elétrica!
Lâmpadas
Por todo
Canto... em
Casa
No caminho.
Lá no terreiro
Da vida
De tudo
De todos...
Eu chorei...
Que agonia!
Eu amava
Aquelas
Luzes.
Onde estão?
Tudo se foi
A luz da
Vela... da
Lamparina e
Do lampião!
Ofuscou meu
Ser
Minha vida
E até a
Alma.
Onde estão
As estrelas
Gente! onde
Está
Minha lua?
E as estrelas
Que eu contava?
Que eu
Seguia ou
Me seguiam...
Mas fui
Vingado
Em pouco
Tempo
Bem pouco!
Adormeci
Sonhando
Com aquele
Céu...
Até hoje...
Pela manhã
Olhei...
Nenhuma
Lâmpada
Brilhava!
Veio a
Maravilhosa
Luz do sol
E a todas
Condenou.
“O caminho
Do homem
Justo é
Assim... como
A luz da aurora!
Vai brilhando
Cada vez
Mais
Até ser
Dia perfeito”.
Hoje! Não
Sei...
Aquelas luzes...
A vela, a
Lamparina...
O lampião
Que eu
Aumentava
E diminuía
A chama...
Minha vó!
As
Mesmas
Lágrimas...
Da alma!!
Vidas que
Não
Prestam
Atenção
Na vida.
Nascem
Para viver
Mas
Apenas passam
Pela vida!
Poeta Camilo Martins
Aqui, hoje, 09.08.07
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h24
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Perdão, perdão, perdão...
Sou apenas um miserável,
sem rumo.
um osso seco,
sem coração.
Perdão, sou sequíssimo,
como torrão
de areia, que ao
vento se desfaz e faz.
Perdão, meu anjo...
Não quis, nunca,
assim te magoar.
Como fui tolo.
Te vi, te amei...
Era só, só, só...
não precisava
Nada mais...
Era só te admirar,
nada mais.
Fui um louco,
agi sem pensar!
Por quê, deus,
pergunto agora,
fui olhar
naquele olhar?
Por quê me aproximar,
fitar a beleza,
beijar a face
e ouvir a voz?
Que loucura será,
que faz o
coração pulsar
assim tão forte?
Que combustível
tremendo é esse,
queimando o
sentimento??
Incendiando a alma,
apertando o
peito e refletindo
em calma? (eco)
Querer, desejar,
sonhar, possuir...
Ó incontrolável
coração... Ou não?
Fechando os olhos,
ela vem...
Abrindo os olhos,
está lá também!
Me despindo de mim,
ela está dentro,
qual vulcão
ativo, fumegante.
Está na mente,
desmente, demente!
Está na mídia,
itinerante e fria...
Tentei enganar-me,
não consegui.
Me desprezastes,
chorei, sorri de mim!
Assim vivo ou não,
sofro ou sim.
Te quero ou não,
te amo! Oh! Sim. Em vão!
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h18
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Conto
Ao orar, cuidado! Deus pode ouvir!
* Camilo Martins
Samuel Evangelista do Nascimento, para os mais íntimos, Samuel Negão. Quando já estava com seus vinte e oito anos foi estudar. Tudo bem, nunca é tarde. Samuel é aquele cara, digamos, diferente. Todos os colegas faziam o curso de contabilidade, mas ele foi fazer o curso de magistério, só ele de homem na classe... Samuel estava contente, trabalhava na marcenaria e assim tocava a vida. Todos no colégio gostavam muito do negão.
Havia tido, como muitos, o grande amor de sua vida, a qual pra ele era Baby Love. Foi um amor frustrado. Ficou no passado. Agora Samuel partiria pra outra.
Havia uma moça, morena e simpática, Nádia Beleza, que já tinha passado do prazo de validade, digo, tinha uma certa idade e fazia ainda a terceira série primária. Isso não era problema, afinal de contas o negão também postergou. Samuel investiu e se saiu muito bem e os dois começaram a namorar.
Depois que terminou o curso de magistério o Samuel começou a estudar na Faculdade de Teologia, queria ser pastor. Quando estava no segundo ano ele casou-se com Nádia. Dois anos depois nasceu uma linda menina. Samuel vivia bem com Nádia e na expectativa de sair a trabalhar e assim viver feliz para sempre, afinal esse é o sonho de todo mundo.
Mas o nego tinha seus limites no aprendizado e já estava com sete anos estudando Teologia e não terminava o curso e o pior já perto dos quarenta anos.
Um dia o diretor da faculdade conversou com os colegas professores e resolveram que iriam passar o negão para que ele se formasse. Assim fizeram. Samuel ficou muito feliz, não agüentava mais as lutas e dificuldades pelas quais passava para se manter estudando e sustentando a família.
Samuel mudou-se com a família para Brasília. Infelizmente não recebeu um chamado para trabalhar como pastor. Estava trabalhando como servente de pedreiro numa construção.
Um pastor que o conhecia o encontrou nessas circunstâncias. Perguntou o que tinha acontecido e porque estava naquela situação. O negão contou e recebeu uma proposta do amigo para trabalhar como um obreiro bíblico numa série de conferências que estava sendo realizada ali no bairro. Samuel sem titubear aceitou.
A vida não estava fácil e Samuel enfrentava muitos problemas com a esposa. Não era o tipo de mulher que ele pensava pra ele, descobriu depois. Nádia havia mudado muito. Não era carinhosa, boa mãe e, nem mesmo aquela mulher piedosa e espiritual que ele havia conhecido lá no colégio, onde ela era até monitora no prédio das meninas. Alguma coisa estava acontecendo. Nádia xingava, brigava sem motivo, dizia palavrões, maltratava as pessoas. Samuel entrou em pânico, ficou sem saber o que fazer e apelou para o que conhecia, Deus.
Um dia Samuel orou: Senhor meu Deus, por favor, tire essa mulher da minha vida, em nome de Jesus, amém! Orou e passou a orar sempre. Talvez não imaginasse o efeito da prece, ou o seu alcance, e orou fervorosamente. Nem pensou como isso pudesse acontecer.
Numa manhã ensolarada, Nádia saiu com a filha para o centro da cidade, foram fazer algumas compras com o pouco dinheiro que Samuel havia ganhado de salário naquele mês. Quando estavam voltando aprontou um temporal, o tempo ficou escuro mesmo! Nadia desceu do ônibus e estava se encaminhando para casa quando caiu um raio atingindo em cheio a ela e a filha, matando-as instantaneamente.
Seria a resposta a oração de Samuel? Não, ele jamais pediu isso. Pediu apenas para que Deus tirasse aquela mulher de sua vida. Nunca desejou a morte dela ou muito menos da filhinha querida. Mas, amargou as duas perdas. Lamentou profundamente a morte da filha. Enquanto viajava com os dois corpos para Marabá, no Pará, para o sepultamento, onde moravam os familiares, meditava no seu pedido a Deus e o que havia dito de errado.
Então, teve essa lição e um dia Samuel disse, hoje eu tomo muito cuidado, porque eu sei que ao orar a gente tem que ter muito cuidado, porque Deus pode ouvir a oração e responder de uma forma assim inimaginável.
* Camilo Martins é Poeta e Escritor, residente em Artur Nogueira - SP. É presidente da Academia Nogueirense de Letras – ANL.
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h09
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