Locutor de rádio...
Ao amigo Dr.Calado Neto (Água Branca-PI)
Foi uma experiência e tanto
Nem é preciso fazer espanto
Rádio primeiro de julho
E eu conto com orgulho.
Programa poesia, amor e vida
Em Água Branca cidade querida!
Quando eu chegava, lá estavam
As cartinhas que me aguardavam.
Camilo Neto - dizia uma com carinho
"Escrevo-te aqui do meu cantinho
Para pedir uma música muito especial
Eu quero ouvir na minha noite nupcial".
Já outra dizia sem nenhuma rima "vai
Cartinha, vai na rádia Primeiro de Julho(ai)
E diz pro Camilo Neto que não esqueça
Nunca de mim"- (Embora ela mereça)...
Numa muito bem escrita a moça dizia
Que já havia mais de um ano não via
Mesmo, mais nenhuma razão para viver
E assim só estava pensando em morrer...
Um outro ouvinte, na carta, sempre pedia
Para tocar a mesma canção, todo dia...
A música -"Morto por dentro" de Barrerito
E o Marcelo, técnico de som ouvia o grito...
Esse cara é gay, com certeza! Oferecia
A música só para machos e se derretia...
Depois descobri o homem era maluco
Os machos eram filhos dele e o matuto...
Oferecia para mim e para o doutor Calado
Eu, o locutor e ele um emprego tinha dado.
Era muito legal! Eu ia do chôro ao riso...
Isso muito longe do chão que hoje eu piso.
Não sei o que se deu, com toda aquela gente
Que me ouvia e me amava, foi muito de repente
Que deixei tudo por lá... Hoje já faz vinte anos...
E no saudoso coração ainda tenho mil planos!
Poeta Camilo Martins
Aqui,hoje,13.01.09
Escrito por Poeta Camilo Martins às 20h49
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Guerras
Para que servem?
Implodir o amor
Explodir o ódio
Implodir a vida
Explodir a morte
Implodir a alegria
Explodir a tristeza
Implodir o riso
Explodir a lágrima
Implodir o bem-estar
Explodir a dor
Implodir a amizade
Explodir o rancor
Implodir a razão
Explodir a raça humana
Implodir a capacidade
Explodir a miséria
Implodir a lealdade
Explodir a desonestidade
Implodir a emoção
Explodir a frieza
Implodir a esperança
Explodir a descrença
Implodir o coração
Explodir a fé
Implodir a ordem
Explodir o caos
Implodir o começo
Explodir o fim.
Poeta Camilo Martins
Aqui,hoje, 05.01.09
Escrito por Poeta Camilo Martins às 20h30
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Nasceu como?
Nasceu sem culpa
Nasceu sem roupa
Nasceu da virgem
Nasceu da hora
Nasceu senhor
Nasceu senhora.
Nasceu capaz
Nasceu beleza
Nasceu de dia
Nasceu na natureza
Nasceu rapaz
Nasceu da tia
Nasceu marrom?
Nasceu bem bom
Nasceu mulato?
Nasceu no prato?
Nasceu sofrendo
Nasceu morrendo.
Nasceu apanhando
Nasceu correndo
Nasceu arranhando
Nasceu perdendo
Nasceu escravo
Nasceu africano.
Nasceu no navio
Nasceu pavio
Nasceu com fome
Nasceu no rio
Nasceu sem nome
Nasceu no cio.
Nasceu dançante
Nasceu no norte
Nasceu do céu
Nasceu pra morte
Nasceu sem véu
Nasceu amante.
Nasceu na lei
Nasceu sem rei
Nasceu pra vida
Nasceu na lida
Nasceu no gueto
Nasceu já preto.
Nasceu um crack?
Nasceu Barack
Nasceu na lama?
Nasceu Obama
Nasceu sem dente
Nasceu presidente.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 20h22
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Sob o luar
Naquela noite nós estávamos
Andando de mãos dadas pelas
Estradas poeirentas do interior...
Roças, o farfalhar das palhas
Das palmeiras e piados
lá dentro da mata eram
Nossos acompanhantes.
Sem querer eu virei-me e
Dei de cara com aquela boca
Linda, maravilhosa, a me convidar
Para um beijo apaixonando...
Claro, não perdi tempo e nos
Amamos loucamente aquela noite.
Testemunha, só a lua com o seu
Lindo esbranquejar da terra,
Naquele sertão sem fim.
Pelas vias tortuosas das
Lembranças que não se vão,
Nem você e eu naquelas estradas.
Diz a lenda que quando duas
Almas se encontram ao luar
Os raios lunares as fundem
Em uma só, no mesmo instante!
Pelo fogo ardente da paixão,
Do amor incandescente que
Envolve os seres que amam.
É tudo um grande mistério...
Mas é possível vislumbrar
Uma gota de compreensão
Na taça indelével do saber...
Agora eu entendo porque hoje
Metade de mim é você e a
Outra metade não sou eu, porque
Aquele luar já levou há tempos...
Poeta Camilo Martins
Aqui, hoje, 11.10.08
Escrito por Poeta Camilo Martins às 20h11
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Alucinação
Na neblina intensa
Arrisquei imensa
Dor que não sentia
Na febre que fazia
Queixo a tremer
Logo ali jazia
Nada repartia
Corpo a arder. Já na mão a pena
Pensa em escrever
A velar a cena
Mas é tão pequena
No peito a gemer
A paz e a solidão
Não consegue ver
Tudo é escuridão. E na imensidão
Do amanhecer
Lá de longe o mar
Fica a escutar
E sem perceber
Vem a inspirar
Mesmo sendo triste
Mais uma canção. Dizendo que existe
Em cada coração
Sem nenhuma ilusão
Mesmo do mais cruel
Do que tem mais fel
Uma simples gota
De cisterna rota
Do amor do céu.
E que vale a pena
Descrever a cena
Daquela morena
Já despindo o véu
Febre a ocultar
No Infeliz a realidade
Que na mente vem
Como uma verdade.
Oh! Dor que vem
E cedo não vai
Sucumbindo a alma
E tirando a calma
Confusão a me angustiar
Triste e enfadonha vida
Terrível e detestável lida
Morte, venha me levar.
Poeta Camilo Martins
Aqui,hoje,20.09.08
Escrito por Poeta Camilo Martins às 22h34
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Pensamento ao léu
Que a boca da noite me engula
Se a gula do saber e o que me irrita
Quanto mais na boca a coisa se derrete
Mais na noite a irritar do sabor se estrangula.
Estrumbica quem na boca da noite se intromete
E da grande farra a farfalhar ao léu, do céu, do fel...
Quero Fazer a boca engrandecer gulosamente o mel,
No pestanejar de cada estrela tua, na lua, espaço sideral.
Vamos seguindo a nuvem passageira, sem passagem pelo universo
Só o verso e que tem vazante pelas veias escuras das nebulosas claras...
Tenho vontade de cruzar o mundo, para chegar ao pensamento teu, sem rumo...
E rumando assim ao inverso da roda, girando sem fim num grande buraco negro.
Borbulhando assim
Vejo transparente
A dança louca
Das peripetrácias.
Interplanetárias...
Galáxias que eu
Nunca vi ou vejo
Só no céu da boca.
Brilhantes sóis da
vida que se vai...
Da imaginária vida
Que cedo já se foi.
Poeta Camilo Martins
Aqui,hoje,29.09.2008
Escrito por Poeta Camilo Martins às 22h20
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Eu e o rio
De um lado era o cais
Dos outro, os babaçuais.
A velha ponte a nos olhar
E nós ali juntos a amar.
Quanta água eu amei
E todas passaram, eu sei...
E foram para o mar sem fim,
Mas ficaram dentro de mim.
Jamais esquecerei as águas...
Nada cura minhas mágoas!
Meu rio hoje é de lágrimas...
Quando viro da vida as páginas.
Ainda vejo, lá no horizonte...
O sol se pondo atrás do monte,
E ali, nós dois, eu e o rio...
E das aves se ajuntando, o pio.
Levarei por toda vida essa sorte
Rio Parnaíba - que nem a morte
Tire de nós a doce essência
De ter ficado juntos na existência.
Poeta Camilo Martins
Aqui,hoje,13.11.08
Escrito por Poeta Camilo Martins às 22h07
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Eternamente Dom Quixote
Ao relento
Lento
Lentamente
A caminhar.
Macilento
Cilente
Tristemente
A soluçar.
Sedento
Ao vento
Levemente
A balançar.
Somente
A mente
Ao nada
Não sente.
Vaga [mente]
Os pés
Na areia
Tão quente.
Veemente
Nas visões
Entorpecentes
Tropegamente.
Enfrentamento
Inevitavelmente
Na luta
Gigantemente.
E na esperança
Sendo forte
Mesmo parecendo
Sancho pança.
Certamente
Eternamente
Quero ser
Dom Quixote.
(De la mancha)
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 21h55
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Diante da eternidade
Vislumbro com serenidade
Essa grande possibilidade
De, diante da eternidade
Com toda fraternidade
Reunindo a cidade
A maternidade
Toda idade
Sem nenhuma vaidade
Na maior veracidade
Não mais crueldade
Nem necessidade
Será raridade
Capacidade
Piedade
Conquistar a tal felicidade
Diante da humanidade
Agora e só bondade
Muita fidelidade
Mais caridade
Sem maldade
Ou Saudade
Daí teremos todos igualdade
Sem nenhuma disparidade
Haverá sim, pluralidade
E até racionalidade
A Nacionalidade
Personalidade
E divindade.
Não veremos mais a insanidade
Na mais profunda densidade
Ficou lá na profundidade
Com sua malignidade
E a sua falsidade
Intranqüilidade
Impiedade.
Nesse momento toda a mocidade
Terá sempre, assim, imunidade
Dentro da sua simplicidade
Respeitando a virilidade
Amar a modernidade
A generosidade
E moralidade
Serão coisas do passado a ansiedade
A tão ruim e temida perplexidade
E a não menos ruim temeridade
Teremos proporcionalidade
Vigorará a amabilidade
Também viabilidade
E a sociabilidade
Teremos uma grande cumplicidade
Vamos ter a mesma mentalidade
Sem o controle da natalidade
O poder de ter praticidade
Sem essa de autoridade
Temos Intimidade
Com integridade
Continuará a boa e sadia sexualidade
Ainda que sem portabilidade
Não haveria durabilidade
Por causa da dualidade
Muita flexibilidade
Sem finalidade
E qualidade
Será mesmo tudo uma novidade
A senha para essa validade
O espelho o da verdade
No coração celebridade
Espírito da liberdade
De estoicidade
Hombridade.
Poeta Camilo Martins
Aqui,hoje,09.01.09
Escrito por Poeta Camilo Martins às 21h45
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O Tempo Passa...
O tempo passa
O vento passa
Passa a vida
Passa o passo
A vida passa
O passo passa
Passa o vento
Passa o tempo
Eu passo
Tu passa
Sem pressa
No compasso
Em compasso
Tu passas
Sem pressa
Eu passo
No passo
Descompassa
A vida
Descalço
Descalço
A vida
No passo
Descompassa
Piso no passo
Compacto
A lida
Que passa
Quem passa
Na lida
Compacta
O piso no passo
O vasto passo
Passa pelo chão
No passo firme
Do coração
No coração
Passa o passo
Firme no vasto
E firme chão
Chão que passo
Sem querer
Passar assim
Tão pássaro
Tão pássaro
Sem querer
Passar assim
Passo no chão
Tudo passa
Queira ou não
Passo a passo
Como nuvem
Queira ou não
Tudo passa
Como nuvem
Passo a passo
O que eu digo
Do passado?
Não sei...
Já passou!
Do passado?
Não sei...
Já passou?
O que eu disse?
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h15
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Reflexão
Ao visitar um dia
o campo-santo,
vendo as tumbas
bem ornamentadas,
lendo cada epitáfio
nas lápides escritas,
refletia assim em
meu último destino.
Li um que me chamou
muito a atenção,
Dizia: “Descobri o rosto
de Deus quando o meu
coração silenciou.”A vida é
como uma vela acesa
que o vento apaga e
tudo fica em silêncio.
Vi imagens de anjos
velando as tumbas,
de Jesus como o bom
pastor, cordeirinhos
e muitas cruzes de formatos
tantos, com flores,
fotos de muitos que já se
foram, de todas as idades.
Verdadeiras obras de artes
para os vivos admirarem,
pois os mortos mesmo,
não sabem coisa nenhuma.
Não vêem mais, não ouvem,
tão pouco dão importância ao
que está ali posto, se bonito ou
feio,se embeleza ou não.
Mas é bom sempre refletir,
em tudo que ali está.
vê, sentir e pensar
que é neste lugar silencioso
e belo, calmo e tranqüilo,
que se aguardará a voz
do arcanjo e o toque da
trombeta de Deus, o Pai.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h13
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Procissão rio a baixo
Na vida às vezes o lembrar,
só refaz no peito régio
o rêgo reles da saudade,
onde a dor reside em sacrilégio.
E eu fico a meditar profundo
na procela da alma em oblação,
o coração hiante e ferido
pela incúria da lembrança louca.
Mas lembro no rio Parnaíba
a procissão em confluência,
descendo rio a baixo a exultar
no encontro final na catedral.
Dia de São Pedro e o foguetório
já no lindo flavo pôr-do-sol,
ao ouvir ficava em frenesi
e corria para a beira do meu rio.
Ali via as lanchas, as canoas,
nos barcos alindados as pessoas,
que no afam de louvar na festa,
nas traiçoeiras águas se lançavam.
Horas após eu ficava a ouvir distante,
lá depois do encontro dos meus rios,
que abraçados, rios Poty e Parnaíba,
assistiam a festa, no bairro Poty Velho.
Oh! Até onde vai o pensamento?
Nas entranhas peripécias de criança.
Quando o tempo não fazia diferença,
se era manhã, tarde ou noite da vida.
Hoje, muito distante da minha terra,
e mais ainda do tempo... Já não ouço mais.
Mas prefiro a loucura da lembrança boa,
do que a amargura cruel da saudade má.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h07
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Fonte de Luz
Oh! Alma inerte
Admirar-te quero,
No íntimo, o peito,
A vida toda espera.
Fagulha de luz
De todas as estrelas,
Fonte de amor
De todas as paixões.
Na busca louca
Da loucura intensa,
Mergulho em ti
Para poder rever-me.
Grito! O mundo é surdo!
No ar a voz a tremular,
O vento urge bravo
No pestanejar da noite.
O olhar se perde fácil,
E num piscar se vai
O pensamento ao léu,
Cortando véu e céu...
A iluminar se detém
A própria fonte de luz,
Ofuscada com o brilho
Que vem dos olhos dela.
Poeta Camilo Martins
Escrito por Poeta Camilo Martins às 19h06
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Conto
A Ponte Metálica
* Camilo Martins
Quando eu nasci ela já estava lá, há vinte e cinco anos! Era Teresina, no Piauí, de um lado e do outro, Timon, no Maranhão. Fronteiras rivais. Os teresinenses chamavam os timonenses de pilãozeiros e a briga estava feita. E a ponte lá, só testemunhando tudo, passa boi, passa gente, passa carros, passa carroças, passa bicicletas, passa o trem, é um vai e vem infernal. A ponte sobre o rio Parnaíba. Rio sereno, na época de seca, é claro! Seiscentos e quarenta e seis metros de largura. Pequeno até, em relação a tantos outros da região norte. Ponte velha, é o apelido. Toda em metal, inaugurada em mil novecentos e trinta e nove, no governo do presidente Getúlio Vargas.
Quantas vezes parei para admirar aquela estrutura, para mim, criança, monumental, enorme, gigantesca! Aquelas pilastras indo para o fundo do rio... Eu ficava pensando, como é que a água não carrega essa ponte? Que coisa fantástica! Eu queria um dia subir em uma daquelas pilastras, mas nunca consegui, apenas uma vez toquei nela, passeando de canoa, era muito alta!
Eu morava a poucas quadras dela, próximo ao iate clube e podia ouvir todo o barulho das pranchas de tábuas com que era feito o piso. Num espaço estreito passavam os carros, bicicletas e pessoas. Quando o trem ia passar, apitava de longe e tudo parava, era a máquina dominadora! Só o trem passava. Todos paravam. Patrac,trac! Patrac,trac! Patrac,trac! Um barulho ensurdecedor. Pessoas gritavam e eu imaginava: será que alguém caiu no rio? Coisa de criança. Só fantasia.
Quando eu ia para a igreja em Timon, ficava com muito medo, havia buracos enormes, para mim, quase intransponíveis e era preciso mamãe segurar em minha mão. Por vezes papai mandava eu ir comprar carne de boi em Timon, sei lá porque, se era mais barata ou não tinha fiscalização e vendiam a chamada “carne da moita”. Então eu tinha que atravessar a ponte velha cheia de buracos no tablado. Papai dizia: não olhe para baixo, você pode ficar tonto e cair lá embaixo! Daí, não dava outra, olhava lá para baixo, a água descendo e muitas vezes quase que caí mesmo. Quando lembro, até hoje me dá arrepios. Depois modernizaram, fizeram o piso de cimento e asfalto e as passarelas de ferro do lado externo da ponte e grandes grades de proteção... Assim é fácil não ter medo!!
Era lá na velha ponte também que eu pulava no rio e descia rio abaixo numa câmara de ar de caminhão, nadava lá para o meio, na correnteza e depois nadava de volta para chegar no caís detrás do iate clube de Teresina. Era meu lazer favorito. Claro, muito perigoso também. Presenciei muitos acidentes, com lanchas, canoas e pessoas embriagadas que iam para o rio tomar banho e terminavam por se afogar. Perdi muitos amigos para as águas do rio Parnaíba.
Lá de cima da ponte eu via as duas cidades, Teresina e Timon. Olhando para onde o rio descia, via muitos coqueiros, na margem esquerda, e na margem direita, mais cidade e minha casa, e lá longe, onde a vista quase não alcançava mais, a curva do rio num encontro majestoso do rio Parnaíba com o rio Poty. Ah, nem posso ficar lembrando muito... Me corre água dos olhos! Que tempo!!!
Na velha ponte também, lembro, que o vendedor de quebra-queixo ficava de cócoras bem no meio dos trilhos com seu tabuleiro. Um dia, por descuido, não percebeu, cochilou, sei lá, coitado! E o trem passou por cima dele. Encontrou-se com a morte e cessaram as suas oportunidades.
Ah! Velha ponte, ponte velha! Naquela ponte eu ia, quando estava me sentindo só, triste, desiludido. Papai tinha uma bicicleta antiga, uma Philips, uma das primeiras que chegou ao Brasil, eu e meu irmão demos conta dela... Eu pegava a bicicleta de papai e ia lá para a ponte velha, para ver o pôr do sol. Por horas eu ficava lá, até escurecer bem. Ah! Aquele pôr do sol, visto da ponte velha, o reflexo nas águas do rio e o sol morrendo lá longe por trás dos babaçuais eu nunca vou esquecer! E os pensamentos que me ocorriam, também não.
Na ponte velha eu levava os meus amores, meus temores... e, minha solidão desaparecia. Hoje, quando eu vejo a ponte metálica, que tem o nome de ponte João Luis Ferreira e que foi a primeira ligação entre Piauí e Maranhão, recordo com muito carinho e respeito das lições que tirei da ponte velha em muitos aspectos da vida: cuidado, atenção, segurança, confiança, temor, romantismo, prazer de viver... Claro, claro, claro, muito mais e mais. Tudo ainda está lá, menos aquele tempo, que se foi há tempos...E eu...
* Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira-SP – É presidente da Academia Nogueirense de Letras.
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h52
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Conto
O melhor presente de natal de mamãe
* Camilo Martins
O Natal sempre é uma oportunidade para grandes acontecimentos, grandes eventos, programas, peças teatrais, enfim, e até uma média para alguns, distribuindo presentes, se fazerem passar por bonzinhos, quando na verdade a intenção é outra completamente diferente, estão interessados em, posteriormente, colher dividendos.
Assim, era Natal e minha mãe foi convidada para fazer parte em uma grande festa que aconteceria no estádio de futebol, Albertão, em Teresina, e que um grande empresário, homem “muito bom” estaria descendo no campo, de helicóptero, vestido de papai Noel e distribuiria milhares de presentes, para todos que quisessem e fossem até lá, na grande festa em benefício das crianças pobres...
Nós fomos até lá, afinal de contas, era algo diferente, nem sempre tinha alguém tão “bom” fazendo um gesto generoso daqueles no Natal! E nós éramos pobres, nem sempre os pais tinham dinheiro para comprar presentes de Natal para nós.
Quando chegamos lá, eu fiquei deslumbrado! Era algo fantástico! Eu nunca havia entrado num estádio e lembro-me que meus primos se entreolharam encafifados com toda aquela grandeza e beleza! Nós ficamos na arquibancada enquanto mamãe se dirigiu até os vestiários onde de lá sairia pelo túnel já dentro do campo vestida de anjo para encenar, com tantas outras pessoas, a peça que fazia parte do espetáculo, onde, depois, Papai Noel apareceria, descendo do helicóptero e não do tradicional trenó puxado por suas renas...( fiquei decepcionado ).
Eu queria ficar perto da minha mãe e por isso fugi, de onde estávamos sendo cuidados por minha irmã mais velha, Mariluce e escalei escadas e muretas, passei por cima de pilhas de tijolos e pedaços de ferros e mais muretas até que finalmente consegui chegar bem do lado do túnel por onde mamãe sairia e ali fiquei... Fiquei... Até que todos os participantes da peça saíram, mas eu não reconheci mamãe e percebi que além de estar num lugar que não devia eu estava perdido, já que era uma multidão e eu não sabia mais onde meus irmãos e primos estavam e nem eles sabiam onde eu estava ou o que estava fazendo naquele momento!
O programa terminou todos começaram a sair e eu comecei a chorar, desesperado, sem presente, sem entender nada, pois nem pude prestar atenção no que foi encenado, porque estava em pânico, pensei por um momento que nunca mais iria ver meus irmãos, pai, mãe, primos e amigos e as lágrimas nos olhos não me deixavam enxergar direito.
De repente senti uma grande mão pegar à minha mão, olhei e vi o Papai Noel, com sua longa barba me olhar, sentir o meu drama, meu choro e me perguntar:
- O que aconteceu garoto? Porque você está chorando? Não ganhou presente?
- Eu desobedeci minha mãe e saí do lugar que eu estava...
- E agora? Perguntou ele – você está perdido?
- Sim! - Respondi – e perguntei – O senhor veio do céu?
- De certa forma sim – disse ele – sabe eu desci naquele aparelho, chamado de helicóptero, distribui os presentes e agora o programa terminou, estou indo embora!
- O senhor pode me ajudar? Indaguei – chorando e soluçando mais ainda
- Claro! - Foi a resposta – venha comigo.
E ele, segurando na minha mão e eu segurando mais forte ainda na dele, tinha medo de soltar e me perder de novo, me levou até à saída, por um atalho, e ficamos esperando todos saírem e entre eles, certamente, sairiam também os meus irmãos e primos e minha mãe, é claro.
Minha irmã Mariluce com meus irmãos chegaram e eu agradeci ao Papai Noel, que até hoje não sei quer era, talvez fosse o meu anjo da guarda, e me juntei à eles; Mas mamãe não estava, pois quando soube que eu havia sumido, estava desesperada no meio da multidão tentando me encontrar, depois de muito tempo, quando voltou ao local de encontro combinado e que me viu lá, me abraçou forte, chorou, me beijou... e pediu, pelo amor de Jesus Cristo, para que eu nunca mais fizesse isso e me disse baixinho que eu era o melhor presente de Natal dela e que nunca queria me perder... Estas palavras de mamãe me deixaram ainda mais emocionado e até hoje não posso lembrar daquele Natal sem que grossas lágrimas me corram pela face! Muito me conforta saber que eu sou o melhor presente de Natal de Minha Mãe e isso não tem presente nenhum no mundo inteiro que possa substituir.
* Camilo Martins é poeta e escritor residente em Artur Nogueira – SP. É presidente da Academia Nogueirense de Letras - ANL
Escrito por Poeta Camilo Martins às 13h45
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